Algumas notas sobre materiais e imaginários insurrecionais • Prefácio à edição
— Vinícius Nicastro Honesko
(Abaixo segue a parte inicial do texto do autor)
Desde 2016, a n-1 vem publicando uma série de textos que orbitam Tiqqun: de Aos nossos amigos (2016) e Motim e destituição: agora (2017), do Comitê invisível, até os recentes Contribuição para a guerra em curso (2019), Como fazer? (2019) e Tudo deu errado, viva o comunismo! (2020). Todavia, uma breve apresentação sobre a constituição dessa órbita – que, com este volume, chega a seu sexto livro – é necessária tanto para indicar ao leitor brasileiro alguns elementos fundamentais acerca do contexto original de formação desses textos quanto para justificar uma opção tradutória na presente edição.
A primeira série de textos de Tiqqun – termo que, na cabala e no messianismo judaico, expressa uma compreensão de redenção, de restauração, associada à ideia de justiça – foi publicada na França em 1999, seguida, posteriormente, da segunda e última série, publicada em outubro de 2001. Compostas em formato revista, nas duas séries, Tiqqun 1 e Tiqqun 2, não havia evocação de um coletivo ou grupo que reivindicasse autoria dos textos, mas que mobilizava uma função, na abertura do primeiro número, de órgão consciente do partido imaginário e, com um sutil deslocamento na abertura do segundo número, de órgão de ligação no seio do partido imaginário. Apenas nas indicações de impressão ao final do livro era apontado um comitê de redação com os seguintes nomes: Julien Boudart, Fulvia Carnevale, Julien Coupat, Junius Frey, Joël Gayraud, Stephan Hottner e Remmy Ricordeau. Essa mobilização de uma imaginação comum – algo da ordem do averroísmo que cintila nos escritos de Tiqqun por meio da influência de pensadores, entre outros, como Spinoza, Deleuze e Agamben – como força política aparece como cerne dos debates nos textos desse período e, com uma potente denúncia das formas políticas contemporâneas, apostava em formas-de-vida radicalmente avessas aos processos de subjetivação das sociedades de controle, nos textos, associadas às noções de Espetáculo e Biopolítica. Nesse sentido, o bom cidadão das assim chamadas democracias espetaculares é analisado em minúcias, e Tiqqun elabora alguns conceitos que orientam essas análises: Bloom, Jovenzinha, local, ON, hipótese cibernética, vida cotidiana, guerra civil. Alguns destes atravessam sobremaneira quase todos os escritos de Tiqqun, além de encontrar descendência farta em textos anônimos de anarquistas, comunistas, movimentos artísticos etc. Ainda no intervalo entre o primeiro e o segundo número, dois dos textos presentes nas revistas já ganharam uma versão em livro: Théorie du Bloom (La Fabrique, 2000) e Premiers matériaux pour une théorie de la Jeune-Fille (Fayard, 2001; edição a partir da qual foi traduzido este volume).
Com a interrupção da edição das revistas, em 2001, dentre os diversos e evidentes rastros de Tiqqun nesses grupos e movimentos políticos, estéticos e afins, destacam-se em específico os textos do Comitê invisível. É com esse nome que um autodenominado “coletivo imaginário” assina, sem reivindicação de autoria, o texto A insurreição que vem. Lançado em março de 2007 pela editora La Fabrique, além da temática da insurreição, a obra faz referências diretas aos eventos de novembro de 2005 chamados “motins das periferias francesas” que, de Paris, se espalharam por toda a França, configurando o que até então teriam sido os maiores tumultos urbanos desde Maio de 68. Nesse sentido, o que chama a atenção no texto é justamente a exposição de uma radicalidade das intenções insurgentes que, após os motins de 2005, voltam a ganhar certa proeminência no debate público francês. Segundo seu editor, Éric Hazan, o texto configurava-se como “uma espécie de atualização para o grande público de outra obra anônima, Appel”, um panfleto que circulou em 2004 e cujas proposições, estilo e conformações teóricas remetiam sua redação a Tiqqun.
Como “escribas de uma situação”, os redatores, não autores, de A insurreição que vem assumiam muitas das formulações e críticas de Tiqqun. Ademais, um mês antes da publicação do livro, em fevereiro de 2007, a mesma La Fabrique publica uma reunião de escritos de Auguste Blanqui – Agora, armas são necessárias –, cujo prefácio, intitulado A um amigo, é assinado por “Alguns agentes do partido imaginário”. A insurreição, a imaginação comum, a amizade política, o caráter anônimo: mais alguns indicativos de ligações possíveis entre Tiqqun e Comitê Invisível.
(continua)...