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PANDEMIA: SINTOMAS DO CAPITALOCENO - PARTE 2 - Horácio Machado Aráoz



Legenda: Daniel Manoel (Coletivo Mirante), Construir Mundo (resposta de Silvana Gualda), 2020 – série “O que não se faz sozinho?”


A seguir, a continuidade do texto publicado por Horácio Machado Aráoz (a primeira parte foi publicada dia 26/08, disponível no blog da editora)



5. Nutrir a terra, curar corpos, cultivar comunidades políticas democráticas. Pistas para uma saída mais humanizada do Capitaloceno... (**)


"Em todas as divisões [criadas pela Modernidade] vejo repetidas as mesmas antinomias básicas: o ser humano como conquistador versus o ser humano como cidadão biótico; a ciência como afiadora de sua espada versus a ciência como tocha para explorar seu universo; a terra como escrava e serva versus a terra como organismo ou corpo coletivo."

Aldo Leopold, 1949


"Deveríamos ter construído as civilizações do pomar e do jardim - em vez disso, construímos as economias da mina a céu aberto".

Jorge Riechmann, 2018


Sem terminar de processar a etiologia da pandemia, as análises do presente são apressadamente focadas em como vamos sair da "crise". Tanto na esfera econômica quanto na política, predominam os discursos que falam de um retorno à "normalidade". A extensão da crise não é totalmente compreendida; portanto, não se percebe que um "retorno à normalidade" não só não é possível, como também não seria desejável. Enquanto na esfera econômica o debate se coloca em termos de uma intensificação ainda maior do neoliberalismo ou um retorno a alguma forma de keynesianismo como suposta alternativa, na esfera política as discussões se centram no tipo de estado (ou de governabilidade) que está tomando forma. As perspectivas críticas têm concentrado suas preocupações principalmente nos novos ou maiores perigos para a democracia e os direitos dos cidadãos que estão incubando na governança da crise.


A maioria das advertências têm sido orientadas a marcar a descoberta da biopolítica até os limites das novas formas de totalitarismo digital. A concentração do poder de monitorar e punir nas mãos do aparato estatal e como esse reforço biotecnológico de monitoramento próximo da população, do que faz, pensa, diz, sente e onde, e como circula, que parece colocar os corpos sob regimes de algoritmos autocráticos, fez com que todxs os olhos fossem colocados no "estado de exceção", como se esse fosse o locus a partir do qual o poder concentrado de fazer as pessoas viverem e/ou deixá-las morrer é efetivamente exercido.


Demasiado afiados para descrever suas tecnologias, as visões foucaultianas são muitas vezes insuficientes, no entanto, para ver as raízes desse poder totalitário em ascensão. Não está claro em todas as suas dimensões até que ponto décadas de hegemonia neoliberal reconfiguraram a Terra em um sentido bastante Hobbesiano; um mundo onde o individualismo competitivo, as desigualdades segregacionistas, o medo e a violência discriminatória em relação à alteridade foram exacerbados. Em suma, um mundo onde a figura do conquistador impregnou os imaginários como forma naturalizada de ser e estar no mundo e como paradigma do "sucesso" social e do sentido da existência. E a verdade é que um mundo de conquistadores, onde pouco e nada sobra para conquistar, não é exatamente um ecossistema propício à vida democrática; nem mesmo para a convivência pacífica.


A julgar pelas análises dos impactos da pandemia, a teoria política contemporânea parece continuar presa nas suposições antropocêntricas de origem. Continua a pensar no humano como excepcional. Continua a conceber a história como exclusividade humana. Assim, não consegue advertir em que medida a salubridade dos regimes políticos está radicalmente imbricada na matriz das relações materiais e energéticas que o corpo social estabelece com a Terra, como suporte primordial básico da reprodução da vida em geral, e das sociedades humanas em particular.


Do nosso ponto de vista, além ou para além das mudanças de Estado e/ou formas de governo, os eventos e processos em curso requerem uma visão mais ampla tanto das raízes ecológicas do autoritarismo e da violência política, quanto das raízes políticas da pandemia. Parece-nos necessário perceber a própria pandemia como um produto e sintoma do grau de decomposição dos sistemas políticos de nossas sociedades contemporâneas.


Em outras palavras, precisamos ser capazes de vislumbrar até que ponto as possibilidades da democracia estão começando a corroer de forma decisiva os processos de concentração da terra e a monopolização dos fluxos energéticos que nos constituem como corpos vivos, em particular os fluxos energético-alimentares. Até que ponto a concentração da capacidade de disposição sobre dietas (água, sementes, conhecimento, sabores), a uniformização genética e sociobiocultural, e a super-simplificação dos territórios-populações são aspectos chave que operam como vetores de fundo das tendências neofascistas do presente, a intensificação da violência racial, sexista e de classe, o surgimento de lideranças autoritárias com apoio eleitoral e a regressão geral dos valores democráticos nas sociedades contemporâneas.


Neste nível, fica claro que dificilmente estamos diante de uma "crise de saúde" que tenha desencadeado uma crise política ou o perigo do autoritarismo. A Biopolítica opera contra um pano de fundo histórico e como uma contrapartida sistêmica à necro-economia. Isto significa que nem a pandemia é um "desastre natural" nem é uma doença que mal afeta os corpos biológicos. A noção de capitaloceno alude justamente à idéia de uma crise sistêmica multidimensional; um evento limite que marca a crise terminal de um modelo civilizatório. A pandemia como sintoma do capitaloceno está marcando a crise terminal da saúde tanto dos órgãos biológicos quanto do próprio corpo político, que por sua vez se refere à crise mais geral da saúde da Terra.


Como já dissemos, no coração desta crise está o regime de plantação, a moderna matriz agroalimentar, que tem sido progressivamente imposta e globalizada como hegemônica por meio de caçadas e cercas de bruxas, tráfico de corpos humanos escravizados, massacres coloniais e neocoloniais pela desapropriação de terras e generalização de regimes de trabalho forçado, missões civilizatórias e campanhas "nacionais" de conquista de desertos" contra os povos indígenas e camponeses do mundo.


Desde suas origens até os dias de hoje - com maior intensidade a partir de meados do século passado - a globalização desta matriz agro-alimentar hegemônica gerou uma "(agro)ontologia tóxica", cujo fluxo de insalubridade sistêmica, circulando entre a terra, corpos e energias sociais, é fonte de doenças biológicas, ecológicas e políticas. De uma perspectiva de saúde integral, um grupo de cientistas fala de uma "sindemia global" para se referir aos problemas correlativos e sinérgicos entre "obesidade, desnutrição e mudança climática", como efeitos desse modelo (The Lancet, 2019). Da perspectiva dos povos originários, eles falam de "terricídio" [9] para se referir ao curso de extermínio desse modelo civilizador em geral, que inclui, é claro, o regime agroalimentar. Em nossa opinião, este conceito adverte muito bem sobre o papel fundamental da violência como combustível político para este regime e sobre suas inseparáveis conseqüências eco-biopolíticas.


É neste contexto, no epílogo deste caminho histórico que devemos nos perguntar: que tipo de democracia podemos aspirar em um mundo de hiper-concentração de terras; em um mundo nas mãos de poucos proprietários? Que tipo de pluralismo e respeito à alteridade podemos esperar, diante da enorme homogeneização dos ecossistemas, da uniformização de paisagens e sonhos, do desmantelamento da diversidade biológica e sócio-cultural do mundo? Que tipo de poder e de liberdade fica nas mãos de sujeitos individuais e coletivos cujos principais bens e serviços vitais estão sob o controle oligopolístico de grandes máquinas globalizadas para o suprimento e a produção das necessidades? A mercantilização dos alimentos e a apropriação concentrada da terra não só degrada a biodiversidade, o clima e as dietas; corrói as condições mais elementares da democracia ao perfurar os próprios processos de produção e sustentação das comunidades políticas.


6. A comunidade (política) da vida, desde a origem até a ruptura


"Cada um de nós, nas relações uns com os outros, passa minutos em que se indigna contra o credo estritamente individualista que está em voga em nossos dias; no entanto, os atos em cuja execução os homens são guiados por sua inclinação à ajuda mútua constituem uma parte tão enorme de nossa vida cotidiana que, se fosse possível pôr-lhes um fim súbito, todo o progresso moral adicional da humanidade seria imediatamente interrompido. A sociedade humana, sem ajuda mútua, não poderia ser mantida além da vida de uma geração"

P. Kropotkin, 1902


"A história nos mostra que a produção comum é o princípio pelo qual os seres humanos organizam sua existência há milhares de anos"

George Caffentzis e Silvia Federici, 2018


Além das questões formais, e outras dimensões que devem ser levadas em conta, a discussão pela democracia não pode omitir uma teoria da terra, que envolve também uma compreensão da nossa ligação específica como comunidades políticas com ela. Desde as origens da nossa espécie, produzir vida tem significado produzir comunidade; porque a vida, materialmente falando, é uma produção; e uma produção comunitária. Especificamente a vida humana é produção comunitária na Terra, com a Terra, da Terra. Daí a natureza política intrínseca e inevitável da condição humana, e também o caráter primordial que - na modulação histórica concreta do político - o vínculo que se estabelece entre uma comunidade humana e a Terra na busca da sua subsistência.


Entendendo-a como um organismo vivo e complexo, como uma teia de interações imensuráveis e em contínua evolução autopoética e simpoética, a Terra em sua dinâmica vital tem sido o útero material em cujo seio a irrupção de nossa espécie tem sido gestada. Entre milhões de outras espécies, fomos misteriosamente capacitados a co-habitar este planeta e, desde estas origens, especificamente os processos humanos não deixaram de estar radicalmente ligados e afetados pela dinâmica geometabólica da Mãe Terra em geral.


Historicamente, nosso próprio processo de constituição como espécie -hominização- foi apenas o resultado dessa interação metabólica entre a terra e o trabalho orientado principalmente para a obtenção e garantia de alimentos. Assim, ao longo de milhares de anos, a humanidade se propôs a co-habitar e desdobrar a aventura da vida na Terra, que envolveu, principalmente, a solução da necessidade básica de garantir o abastecimento alimentar. Dadas suas transformações sócio-cognitivas, essas comunidades humanas diversificaram suas práticas alimentares, expandiram seus horizontes geográficos e, aos poucos, foram se enraizando nas mais diversas geografias. Da selva ao Ártico, as populações humanas se estabeleceram sob o princípio ecológico-político de priorizar a satisfação das necessidades alimentares de todxs os membros da comunidade.


A irrupção da agricultura - entre 10.000 e 15.000 anos atrás - apenas intensificou esse elo material inseparável e simbólico de energia e fluxos materiais entre a terra e o trabalho, como a matriz fundamental através da qual a produção e implantação da vida social humana ocorreu. A diversidade ecológica dos territórios foi a matéria prima a partir da qual se moldou a extraordinária diversidade sócio-cultural dos povos. Desde tempos imemoriais, a diversidade das dietas tem sido um elemento emblemático das culturas. As dietas, de fato, expressam de forma sintética e integral todxs os aspectos e dimensões do modo de vida dos povos: sua visão de mundo, seus conhecimentos, suas formas de organização do trabalho e da cooperação social em geral. É nesse sentido que os sistemas agroalimentares constituem um nó vital - no sentido mais literal - tanto na configuração das sociedades humanas, como comunidades políticas, como na socialização da Natureza, como forma humana de habitar a Terra.


Como ensinam os estudos em antropologia econômica, além dessa extraordinária sociobiodiversidade - ou no âmbito dela -, os sistemas agroalimentares pré-modernos foram estruturados sob o mesmo princípio compartilhado de organização comunitária da produção. Isto significa, basicamente, que o processo geral de produção social da vida nestas comunidades foi regido e regulado pelos princípios de reciprocidade, redistribuição de tarefas e desfrute do que era comumente produzido.


Tais princípios tiveram o efeito de assegurar o equilíbrio energético entre todxs os membros - humanos e não humanos - da comunidade da vida. Em particular, reciprocidade e redistribuição são a fórmula pela qual a comunidade é o alimento de seus membros, assim como cada membro proporciona a nutrição da comunidade. Reciprocidade e redistribuição são materializadas em cadeias alimentares circulares e biodiversificadas, complementares, na qual os alimentos fluem como um meio de união comunitária que sustenta a vida.


A orientação prioritária à autoprodução para a satisfação de necessidades vitais teve o efeito de regular os ritmos e níveis de produção, ajustando-os às possibilidades dos ecossistemas e às necessidades energéticas básicas de cada membro. Foi o que marcou o limite, o freio que a comunidade humana teve que considerar para que suas taxas de consumo de energia não sobrecarregassem os ecossistemas ou os corpos.


Estes princípios básicos foram o suporte material e espiritual destas agro-culturas; a chave para sua economia e sua constituição política. Seu efeito, o equilíbrio energético - o que hoje chamaríamos de justiça sócio-ecológica - era a forma de ajustar a produção à vida (bioeconomia) e era a forma (inseparavelmente ecológica, econômica e política) de (re)produzir a comunidade política. Assim, nesses sistemas comunitários, a alimentação e o trabalho (os fluxos de energia vital) foram concebidos e produzidos mais como bens políticos do que "econômicos"; suas regras de distribuição e acesso estavam sujeitas - como o próprio mercado - à economia moral da comunidade.


Em contrapartida, torna-se evidente a grande fratura envolvida na transformação capitalista da agricultura, com a irrupção do regime de plantio. A Grande Transformação - como Karl Polanyi lhe chamou - foi, na verdade, um processo drástico e traumático de destruição da economia moral que até então regulava o metabolismo social da vida comunitária. A ruptura das regras de reciprocidade e redistribuição, em termos comunitários, abriu caminho para a economia de guerra; inaugurou uma época em que a produção dos meios de vida se transformava em uma máquina de destruição das fontes de vida e de produção de abissais e crescentes desigualdades, dentro da população humana e entre esta, e o resto das comunidades bióticas. Como sabemos, "produção" veio a significar exploração; exploração de corpos e territórios. A prioridade das necessidades vitais foi substituída pelo lucro como combustível para as subjetividades que dirigem o "aparato produtivo".


Os primeiros estudiosos modernos do solo, já em meados do século XIX, perceberam que a agricultura capitalista não era agricultura, mas uma forma extrema de mineração. Com base nos estudos de Liebig, Marx falou sobre a ruptura metabólica representada pela irrupção do capital nas comunidades agrárias. A produção agrícola não se trata de sustentar a vida; ela produz commodities, não alimentos. O solo deixa de ser um organismo vivo e é tratado como uma pedreira. No princípio que desencadeia essas transformações, temos a violência expropriatória que se exerce sobre a terra e os corpos; a alimentação e o trabalho são agora regidos pelas regras do mercado. Para piorar, a mudança do valor de uso para o valor de troca foi como quebrar a bússola: uma máquina potente e rápida, mas sem direção e sem freios.


Já conhecemos as conseqüências desse processo: a destruição das economias comunitárias foi o ponto de partida da necro-economia do capital. Portanto, mais do que uma ruptura, pode-se dizer que foi um distúrbio geo-sociometabólico profundo e drástico. A irrupção do capital afetou os ciclos de vida, tanto em nível geológico quanto antropológico. Todos os desequilíbrios que vemos e sofremos hoje têm suas raízes nessa desordem original.


Desequilíbrios tróficos em nível biosférico e em nível de comunidades humanas: o que chamamos de mudança climática, erosão da biodiversidade e sexta extinção em massa de espécies, crise dos ciclos de nutrientes. Desequilíbrios drásticos no saldo energético dos organismos humanos vivos: à geografia da fome - avisou Josué de Castro - devemos agora acrescentar a geografia da obesidade, a geografia da intoxicação e a geografia do câncer. E os desequilíbrios no corpo são apenas um reflexo dos desequilíbrios na Terra. Vivemos imersos numa geografia mais do que desequilibrada, insana, que se nos mostra, por um lado como um "planeta de cidades miseráveis" (Mike Davis) e, por outro, como um mar de "desertos verdes" (Alimonda).


Mas, no fundo de todos os desequilíbrios, na raiz geradora desse caos geo-sociometabólico está a própria dissolução da comunidade política: a invenção/criação de uma sociedade de indivíduos, auto-concebidos como donos absolutos de "suas vidas" e "suas propriedades"; chamados a se transformarem em conquistadores; e que definem o sentido de sua existência em termos de um caminho infinito de compra e venda.


A ruptura das cadeias alimentares pelas monoculturas, das regras da reciprocidade e da responsabilidade mútua, da abstração de valor, terminou assim, afetando a consciência da interdependência, da necessidade e da centralidade da economia dos cuidados e da reprodução; a sensibilidade vital da espécie. Criou indivíduos que acreditam ser o início e o fim de tudo. Que a vida começa e termina com eles. Que a felicidade é uma equação de consumo. Que a vida dos outros e as relações com os outros - as da própria espécie e as de outras espécies - só valem a pena desde que tragam alguma utilidade/ganho para ela. Em suma, indivíduos que acreditam que valem a pena para si mesmos, e que vivem como se todxs à sua volta fossem absolutamente dispensáveis, insignificantes, apenas mensuráveis pelo seu preço.


Em nosso país (Argentina), em nossa região, temos um exemplo dramático desses processos. A drástica transformação das eco-regiões Pampeana e Chaco em um mar de soja, a reconfiguração abrupta e subterrânea da geografia política sul-americana para dar origem à constituição da "república unida da soja", deu origem à formação de uma "cidadania da soja"; uma subjetividade da soja. Uma subjetividade política que se encaixa bem nos moldes do indivíduo Hobbesiano. Esta é a especificidade regional da cepa viral que nos está infectando.

Legenda: Dariane Morais (Coletivo Mirante), Brindar (resposta de Tereza Meirelles), 2020 – série “O que não se faz sozinho?”


7. Para nos transformar em húmus... -Para alimentar um novo horizonte político


"Falar do fim do mundo é falar da necessidade de imaginar, diante de um mundo novo no lugar deste nosso mundo atual, um novo povo; o povo desaparecido. Um povo que acredita no mundo que terá de criar com o que lhes deixamos do mundo".

Viveiros de Castro e Danowski, 2019


De alguma forma, o coronavírus nos devolve a imagem do mundo que criamos e no qual acreditávamos. Na raiz da necro-economia do capital está a antropologia imaginária da filosofia política liberal e da "economia moderna": o indivíduo "racional", maximizador de seus interesses/utilidades, titular de "direitos" (basicamente direitos reais) e que agora, no epílogo da corrida armamentista tecnológica, pretende controlar tudo através de telas táteis e algoritmos; o indivíduo que acredita que todos os elos e relações podem ser reduzidos ao virtual e à agenda de contatos de um celular; que o mundo digital é o presente e o futuro; que o indivíduo, encarnação das elucubrações de Hobbes e Smith, é aquele que hoje está em quarentena.


Isolado, com medidas de "distanciamento social", em quarentena nas respectivas condições de classe; egocêntrico e cada vez mais absorvido no "mundo virtual" e na indústria global do entretenimento, o vírus reflete a imagem de uma sociedade perdida. Perdido na história e no cosmos; mas também perdido como sociedade, como comunidade política. Porque a dissolução dos princípios de reciprocidade e redistribuição é a própria dissolução da sociedade humana como tal, como esfera política e sistema de convivência.


A ignorância dos laços e fluxos que nos ligam à Terra, que nos tornam seres terrestres, vivendo com toda a biodiversidade, em uma comunidade de comunidades, tem levado ao desconhecimento de nossa própria sociabilidade intra-específica. Encontramo-nos no limiar de uma encruzilhada civilizatória crucial: ou continuamos no caminho do mundo Hobbesiano que esta crise revelou, ou ousamos avançar no caminho oposto de recriar e cultivar comunidade, para cultivar um mundo de solidariedade ampliada e de intensa reciprocidade, que esta crise também ajudou a tornar visível nos mundos re-existentes, confinados às margens.


Assim, o que está em jogo não é apenas o grau de autoritarismo dos sistemas políticos, mas as condições elementares de reprodução de vidas que são humanamente reconhecíveis como tal. Não é possível deter a onda de autoritarismo e impulsos neofascistas que degradam as democracias realmente existentes, sem deserdar o mundo. Sem restringir radicalmente os "direitos de propriedade". Sem desmercantilizar os dois principais fluxos energéticos em que nossa vida, alimentação e trabalho, está envolvida, e sem desmercantilizar a própria terra, como fonte primária de todas as energias.


Hoje, mais do que nunca, é evidente que os principais desafios políticos são eminentemente (agro)ecológicos. O desafio é a necessidade imperativa de nos recriarmos como comunidade política, para a qual é indispensável recompor os fluxos geo-sociometabólicos para deter a devastação e começar a recompor a saúde material e espiritual, dos corpos, das sociedades humanas e da Terra, como comunidade de comunidades. Precisamos recuperar essa memória ancestral que nos ensina que "produzir em comum" é a lei da vida, expressão de uma racionalidade encarnada e enraizada; a razão justamente negada pelo império da Razão abstrata. Recuperando o conhecimento transmitido por gerações de que a saúde da terra, dos alimentos, dos corpos e das comunidades políticas formam um mesmo tecido; fazem parte do complexo tecido da vida.


Para (ter uma chance de) recuperar a democracia, precisamos primeiro curar a Terra. Retorno às práticas agro-culturais de cuidado, criação, reciprocidade,, respeito à diversidade biológica e sócio-cultural. Precisamos reaprender nosso lugar no mundo. Precisamos nos redescobrir como húmus, filhas e filhos da Mãe Terra, numa comunhão de interdependência vital e existencial com a comunidade de comunidades bióticas que a habitam. Tal caminho não é utópico, nem romântico, nem idealista. É a topologia da vida que respira nos povos re-existentes; uma topologia marginal e assombrada, sim, mas que nos confronta e nos mostra alternativas para a distopia hegemônica. Se tivéssemos humildade epistêmica suficiente, poderíamos aprender com elxs e elxs. A situação de extrema vulnerabilidade em que um microorganismo nos colocou deve nos estimular a fazê-lo.


Em sua análise da crise atual, o pesquisador britânico Naffez Ahmed afirma que "A superação do coronavírus será um exercício não só para desenvolver a resiliência social, mas também para reaprender os valores da cooperação, compaixão, generosidade e bondade, e construir sistemas que institucionalizem esses valores". Esses valores, ressalta, não são simplesmente construções humanas ou preferências ideológicas. Na verdade, são princípios vitais e categorias cognitivas que guiam a matéria viva em geral no seu curso de evolução e adaptação. Como princípios ecológicos que norteiam a dinâmica da evolução da Vida na Terra, a reciprocidade e a solidariedade ampliada são hoje uma exigência para a sobrevivência. Como o ecologista americano Aldo Leopold advertiu em 1949, precisamos estabelecer uma relação ética com a Terra, não apenas para "salvar o planeta", mas para recuperar nossa própria condição humana. "Uma ética terrestre muda o papel do Homo sapiens: de conquistador da comunidade terrestre para simples membro e cidadão dela. Isto implica respeito por seus companheiros e também respeito pela comunidade como tal" ("The Earth Ethics", 1949).


Assim, até que se abra a possibilidade de reconsiderar o status ontológico, político e ético da Mãe Terra, veremos o caminho fechado para uma sociedade plenamente democrática, que realisticamente aspira a combinar justiça, liberdade, igualdade e confraternidade.


No meio de tanta dor, diante do panorama de tanto sofrimento revelado e provocado, esta pandemia veio também nos oferecer, no entanto, uma ação terapêutica e uma lição política. Ela nos mostrou a origem dos nossos males, da nossa doença civilizadora. Mas também nos ilumina sobre possíveis caminhos de cura. Mostra-nos a possibilidade terapêutica de deixarmos de nos comportar como conquistadores e de começarmos a conceber-nos e a comportar-nos como nobres e humildes cultivadores da Mãe Terra. Reconhecer-nos novamente como húmus para encorajar outros futuros possíveis; horizontes que sejam dignos do nosso nome.

*


Horácio Machado Aráoz é professor da Universidade Nacional de Catamarca, na Argentina, doutor em Ciências Humanas e pesquisador do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso)


Tradução

Salvador Schavelzon

Antropólogo e professor da Unifesp

Fábio Tremonte

Artista, educador, pesquisador, anarcotropicalista. Doutorando em artes visuais na ECA-USP.


*


Notas

*Este artigo foi publicado originalmente nas seções www.latinta.com.ar, sob o título A Pandemia como Sintoma do Capitaloceno.

** Esta seção foi co-autoria com Leonardo Rossi. Colectivo de Investigación Ecología Política del Sur -CITCA-CONICET.

11]Como parte de uma queixa ao Estado argentino, mulheres indígenas de várias comunidades expressaram em 2019: "Chamamos ao assassinato não só dos ecossistemas tangíveis e dos povos que os habitam, mas também ao assassinato de todas as forças que regulam a vida na terra, o que chamamos de ecossistema perceptível. Estes espíritos são responsáveis pela continuação da vida na face da terra e estão sendo destruídos juntamente com o seu habitat" (https://bit.ly/3cFsskA)


Versão em Espanhol: https://rebelion.org/pandemia-sintomatologia-del-capitaloceno/


Nota da edição

As imagens que acompanham o texto neste post são do Coletivo Mirante, formado por artistas visuais e educadores – Daniel Manoel, Daniel Normal, Daphine Juliana, Dariane Morais, Giulia Frozza, Rebecca Nitta e Sidnei Bruno – que atuam com foco em arte contemporânea e no processo criativo coletivo. “O que não se faz sozinho?” é uma série que investiga modos de coletividade e processos de criação em grupo. Por meio de breves entrevistas com diversas pessoas, foram levantadas algumas respostas que delineiam essas ações para provocar reflexões do que nos faz um coletivo. Certos depoimentos sobre a pergunta-título foram transformados em desenhos, sintetizando um imaginário das pessoas entrevistadas. Seja por necessidade ou vontade, fazer algo com alguém é uma relação que pressupõe um estabelecimento de conexões que podem, com o tempo, se tornar imprescindíveis.

Link do início da série no Instagram: https://www.instagram.com/p/CBRZqyNn-uB/


*


Quarentene-se

Ao longo da pandemia, a GLAC edições publicou diferentes textos-testemunhos de diversos autores, esta disposição se configurou em uma série, editada sempre às quarta-feiras pela por Paloma Durante. "Quarentene-se" é uma apropriação e referência à uma trilogia de artigos de Claudio Medeiros e Victor Galdino publicada no site do Outras Palavras. Contato: malopadurante@gmail.com



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