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DITADURA - Gigi


Legenda: tempestade de areia no bairro de Shubra, Cairo.

- Cairo - início de Janeiro de 2019


Eu cheguei aqui em Janeiro, fazia muito frio e um sol forte. O Bolsonaro havia acabado de entrar para o Governo do Brasil, mas a sensação era ao mesmo tempo de encerramento e continuação do mesmo. Me mudei para o Egito para trabalhar em uma escola autônoma que havia sido criada a partir da influência de Paulo Freire na região, qual vinha de um momento pós-revolucionário, até chegar no caos militar que hoje banha o país. Andava na rua e sentia uma pulsão de vida profunda, uma espécie de conglomerado de belezas e criatividades, gritos e sons, a potência do improviso parecia que havia alcançado por aqui seu melhor momento, casas suportadas por cordas que seguram outras cordas e outros cabos que formam um grande e lindo mosaico de traços e linhas. Olhava para isso tudo e pensava que o mesmo método do Paulo Freire, que havia dado luz à escola autônoma daqui, estava sendo cassado por políticos lá em casa, onde o pedagogo era pintado como o bruxo de um marxismo demoníaco. Pensava: “será que eles sabem o que Paulo Freire queria de fato?”. Caminho por Tahrir e vejo uma foto gigantesca do Sisi (presidente), se fazendo visível ao cobrir a fachada de uma prédio como uma espécie de grande big-brother – sempre presente, com fotos enquadradas em cafés e lojas, de óculos de sol ou vestido de milico e Kalashnikov sem pente. Conversava constantemente sobre a política do país, curioso para tentar entender o que era aquilo tudo e, ao mesmo tempo, como uma memória do não vivido, lembrava das histórias da ditadura no Brasil, as pessoas aprisionadas e a constante presença de homens nas ruas. Os boy no comando, bigode semi-feito, junto a uma estupidez monumental, e rios, rios de Kalashnikovs. São 40 mil presos políticos aqui…anos atrás o evento do Barco Cairo 52 aconteceu no Nilo, colocando 52 pessoas na prisão por causa de suas orientações sexuais. Lembrei de quando o meu pai foi preso, pois estava com um homem em um carro: foi pego pelos militares e levado ao quartel; ele saiu, já os egípcios foram julgados e acusados de não-egípcios, pois suas orientações sexuais não condiziam com a que o estado impunha. 21 pessoas daquele barco foram sentenciados a três anos de prisão.


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Dokki - fim de Janeiro de 2019


Caminho pela avenida que liga o bairro de Dokki ao bairro de Giza, ao lado direito vejo essa foto, logo abaixo. O raptar da narrativa, o roubo da memória, essa mudança de passado recente (me) deixava meu amigo Ahamed extremamente incomodado. “Isso, pra mim, é o pior… nos roubaram essa data e inverteram a ordem das coisas”. O dia 25 de Janeiro é especial pois foi a exata data que, em 2011, milhares de pessoas tomaram Tahrir e fizeram o que se chama de revolução. Hoje, o governo que deu o Golpe de Estado e implantou um regime ainda pior que o de Mubarak significa o dia 25 de Janeiro como o “Dia da Nação”.



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Munira - meio de Maio de 2019

Encontro Sarah, uma amiga, que me diz que seu namorado italiano havia sido expulso de casa sem nenhum motivo. Ele havia se desentendido com o porteiro, qual planejou seu despejo. “São os porteiros que mandam no Egito”, me disse ela: eles atuam, em muitos casos, como informantes do serviço secreto, vigiando quem entra e sai, com o que entra e sai, tomando conta dos corpos (principalmente de mulheres) da malha urbana. Sarah não podia receber visitas de homens pois seu porteiro não deixava. Essa vigilância que existe hoje por aqui, e que muitos reclamam, já acontece de maneira informal no Egito a muito tempo: a maioria das pessoas atuam como espiões voluntários (مخابرت متطوع), fazem correr notícias, se tornando extensões dos olhos do governo. Sarah também me disse que seu namorado havia tido muitos problemas por causa de sua nacionalidade italiana. Isso se refletia com mais intensidade desde o caso Giulio Regeni – um estudante italiano que pesquisava o papel dos sindicatos na revolução e que foi brutalmente assassinado, com seus pedaços jogados na estrada pelo exército. O namorado de Sarah era assim desprezado repetidas vezes pelos militares.

O Egito enviou recentemente para a Itália um avião com equipamentos médicos para abastecer um milhão de pessoas. Pensei no porque disso tudo, pensei que grande parte dos habitantes do Novo Cairo e Maadi (bairros ricos do Cairo) estariam felizes com a idéia de estarem ajudando um país europeu. Olho para o lado e vejo duas carroças vendendo melancias e cebolas a 20 centavos o kilo, mas, ao fundo, dois outdoors tombados e uma casa abandonada me lembravam projetos de bienais de artes que discutiam moradia e arquitetura vernacular… Talvez o Hassan Fathy (I) achasse legal isso tudo… Talvez… Um jornalista me disse, ao ouvir minhas histórias, que parte disso tudo se deve também a um grande acordo armamentista entre os dois países (Itália e Egito) que seria anunciado nas próximas semanas, como uma diplomacia para a reconstrução das relações entre os países após o assassinato de Giulio.

Legenda: Porto para passeios de Balsa no Cairo.


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Whatsapp - começo de Março de 2020

Ligo o celular e vejo mensagens do amigo Bolsominion não-arrependido, que falam sobre a necessidade do não fechamento do comércio pois, para ele, isso iria prejudicar a economia. Fiquei com raiva disso tudo e disse a ele que viesse pra cá, estar perto dos militares e da vida sob a ocupação militar dos espaços, dos movimentos, das piadas que fazem quando você anda na rua e tem o cabelo pintado, dos constantes desrespeitos às suas amigas, que passam pela mesma rua que você. Será que algum brasileiro/a/e minha geração tem alguma noção do que é esse tipo de controle? Será que esse mesmo Bolsominion sabe o que é ter que trabalhar de qualquer jeito, com a imunidade baixa e correr risco de se contaminar pois tudo o que o governo quer é verdadeiramente que você “não pense e trabalhe calado”. O privilégio da quarentena é algo absurdo de não se questionar, poder ficar em casa com comida, falar sobre o tempo e ler poesia, enquanto lá fora até os cães e gatos começam a morrer mais e mais na rua, pois os restos de comida dos restaurantes não existem mais, é algo importante a se debater. Passo pela rua marginal ao Nilo e vejo um cavalo morto, inchado e com as pernas para cima, logo ao lado do prédio onde fica a embaixada brasileira… Havia trânsito naquele dia. Será que o embaixador chegou no horário do seu primeiro compromisso?


Legenda: Tempestade de Areia (Bairro de Shubra, Cairo).

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Talat Harb - Meio de março de 2020

Nessa semana os militares colocaram um bloqueio, um toque de recolher às 19 horas de todos os dias. Por volta das 18h30 vejo tanques e muitos homens já na rua, se preparando. Aguardo o meu amigo passar de moto para me pegar e, em pouco tempo, vem um cara e fala “que você tá fazendo aqui?”, eu pergunto se ele é policial e ele me diz que sim. Disse eu que deveria ir pra casa. Vi nos olhos dele uma felicidade interna por saber que muito em breve as ruas serão todas só pra eles. Os prédios e mesquitas da cidades de mil minaretes terão apenas esses boys como espectadores, além dos cachorros passando pela ruas e o silêncio, a beira do Nilo. Tive raiva de não poder ver a cidade dessa forma. Eu disse que já iria pra casa e fui vagarosamente para o canto. Vi a praça Talat Harb vazia e tirei uma foto com o celular. O mesmo milico me gritou “o quê que é que você está fazendo???”, respondi com um ar irônico de alguém que está claramente fazendo algo e responde esse mesmo movimento. Ele me obrigou a lhe dar o meu celular e começou a ver as fotos, bem mais distantes das que acabara de fazer. Vi em seus olhos uma certa perversidade de quem entra na casa de alguém, de quem invade na sua frente, mexe nas suas coisas, fuça em tudo, bisbilhota a sua intimidade e tem todo um aparato do Estado o protegendo. No começo do ano, perto do aniversário da revolução (25 de Janeiro), o mesmo acontecia com uma série de outras pessoas próximas, invasões de casas seguidas de buscas, paradas no meio da rua e consultas de celulares, tudo isso para evitar possíveis aglomerações e a volta a um passado na tal praça, não tão distante de onde eu estava. O medo do retorno das manifestações continua vivo no Estado e por isso a repressão e o aprisionamento são formas de controlar os habitantes daqui. Pouco antes do 25 de Janeiro houve manifestações em Tahrir, em pequena escala, mas que mesmo assim fizeram com que cerca de mil pessoas fossem presas e o estado de vigilância permanente retornasse com muita força. A sede do único jornal independente do Egito foi invadida e seus trabalhadores presos por uma semana. O que aconteceu com a Mada Masr (nome do jornal) foi similar aos brigadistas de Alter do Chão no Brasil, de alguma forma, a humilhação é o recado do Estado.


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Carro - 13 de abril de 2020

Eu e Yasmin, uma amiga, pegamos a Rodovia Suez sentido Novo Cairo. A nova cidade capital do Egito situa-se a cerca de 40km do centro e lembra, de inúmeras formas, o projeto de Brasília: amarelo, fios elétricos, carros grandes e rodovias com outdoors vazios. Um projeto faraônico no meio do Sahara, onde uma cidade é colocada em cima de areia, no calor, com ar condicionado e água trazida por longos tubos.


Yasmin começa a me contar sobre como anda a situação política do Egito infestado pelo coronavírus. Um evento para além do estranho, me falou de quando uma fábrica de artigos sanitários teve parte de suas substâncias de preparo para produtos médicos confiscada pelos militares. Num segundo momento, a fábrica foi fechada pelos próprios habibis de farda, afim de que tivessem tempo para desenvolver seus próprios artigos sanitários, exportá-los e vende-los através do país, mantendo assim um domínio sobre o consumo e taxando os concorrentes. Depois de terem se estabelecido no mercado, o regime permitiu que a fábrica voltasse a fabricar seus próprios produtos.

Ela me disse que o bloqueio total (o bloqueio, até o momento, ocorre apenas pela noite) seria algo impossível, pois causaria o caos, de duas uma: “um completo colapso da sociedade causando fome e outros problemas básicos ou uma nova onda de protestos contra as medidas adotadas pelo governo”. O Egito tem 50% da economia gerada de maneira informal. Os amigos, por meio do Instagram, me perguntaram o que se passava aqui, pois não havia bloqueio. Pensei em como a cultura de economizar dinheiro não é algo universal, que grande parte das pessoas nesse país (e em grande parte do mundo árabe) vivem do dia-dia financeiro. Isso se torna claro pra mim, quando caminho pelo bairro onde moro (Shubra), na periferia do Cairo, onde só se fala na pandemia e ao mesmo tempo nada está fechado. Nesse momento, do outro lado da rua, alguém me grita CORONA.


Legenda: Mercado Khan Al-Khalili, um dos maiores mercados de todo o Egito.


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Bicicleta - Shubra 14 de Abril de 2020

Saio de casa e vejo muitas pessoas nas ruas, muito mais do que no começo do toque de recolher. O Ministro da Informação disse ser impossível manter a distância e a proibição da circulação das pessoas, uma vez que mantê-las em casa vai contra o própria maneira de existir…. Desde que começaram as restrições, nunca havia visto tanta gente na rua, um mercado de Tamaras (Temer em árabe) abriu-se na rua de casa. Completamente administrado por mulheres que ficam na rua com suas sacas lotadas. Lembrei de quando o Temer entrou no poder e eu estava na Palestina, de quando tudo aquilo parecia o pior que chegaríamos… Achava que seria o pior…



Gigi

enviado pelo aplicativo de mensagens WIRE


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Gigi é anônima por motivos de segurança.


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Notas I - Hassan Fathy foi um arquiteto, engenheiro e inventor egípcio. Crítico da industrialização da construção, voltou-se para o estudo das construções rurais da sua região, especialmente a construção artesanal com tijolos de adobe


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A palavra é vírus

Simultânea e paralelamente à pandemia do novo coronavírus, muitas palavras também ganham a insistência das repetições. A cada segunda-feira, um novo ensaio pensando com as palavras. Quer saber mais sobre a série? clica aqui

Editores: Wander Wilson e André Arias. E-mails de contato: wanderwi@gmail.com / andre.fogli@gmail.com

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